segunda-feira, 7 de junho de 2010

A decadência do Mico-Leão-Dourado

2010 é o ano da Diversidade Biológica ou como é mais conhecida, a BIODIVERSIDADE.

Talvez seja o momento de revermos as estratégias para mostrar ao público em geral como a diversidade de organismos que nos cercam é importante. No início da conscientização sobre a importância da biodiversidade o panda da WWF foi o primeiro animal a ser usado como “espécie bandeira”.

As “espécies bandeira” desde então vem sendo utilizadas para “levantar a bandeira da conservação e inúmeros outros organismo, plantas e animais foram elevados a esta condição. Sempre com o objetivo de alertar para a perda da biodiversidade.

Mas, por mais carismáticos e fofinhos que sejam estes animais, porque é importante salvá-los em contraposição a melhorar as condições de vida de populações humanas?

Este é um questionamento que venho ouvindo há algum tempo. Como biólogo e zoólogo tenho especial predileção pela diversidade biológica, mas como humano e cidadão entendo a pergunta.

Acontece que estes animais carismáticos são apenas, como o nome do conceito diz: bandeiras. Bandeiras para chamar a atenção de que é necessário, para o nosso próprio bem, preservar a diversidade biológica. Não é necessariamente uma ou outra espécie que, uma vez extinta irá afetar diretamente o ser humano, mas estas situações acontecem e já são documentadas há algum tempo (*CHAPIN III et al., 2000 e referências citadas). Possivelmente a população humana não perderia materialmente muito sem o panda. No entanto, banalizar as extinções é compactuar com um imediatismo pouco inteligente e que disperdiça o que a evolução levou bilhões de anos para desenvolver.

Recentemente, no Brasil vimos alguns exemplos onde a mídia e o próprio governo levaram ao ridículo o uso de espécies bandeira em defesa da biodiversidade. Um deles foi a dourada da amazônia (Brachyplatystoma rousseauxii) que foi reduzido ao “Bagre que caiu no colo do Lula. Outra foi a perereca Physalaemus soaresi, responsabilizada por parar a obra do Arco Rodoviário do Rio de Janeiro. Neste caso em particular a imprensa ficou em polvorosa – como seria possível parar uma obra com tantos benefícios econômicos e sociais por causa de uma PERERECA???? Outros casos existem, como ararinhas-azuis no Gasoduto Brasil-Bolívia e o sapo-narigudo-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus macrogranulosus) em um trecho da BR-101 no Rio Grande do Sul.
O fato é que, nestes casos apontar a existência de espécies ameaçadas foi uma “faca de dois gumes”. Todos os problemas de licenciamento relacionados a estas espécies seriam facilmente resolvidos se o trajeto ou a localização dos empreendimentos que as ameaçavam/ameaçam fosse alterado. O caso da dourada da amazônia apresenta apenas a ponta de um iceberg que irá modificar em muito a hidrodinâmica Bacia Amazônica e, por conseguinte, de todo o ecossistema aquático do Amazonas. O caso dos anfíbios (pererecas e sapos) e da ararinha-azul o “problema” gerado e toda a estupefação do povo, na verdade, encobriu intenções mesquinhas por parte dos empreendedores, inclusive o governo (através de suas empreiteiras) de economizar centavos nos empreendimentos em troca de sacrificar um patrimônio que é igualmente da Nação. Diferente de oportunidades de negócios, uma vez que a Sociedade abra mão destas espécies não haverá chance de recuperá-las. Além do mais, como espécies bandeira ou espécies guarda-chuva, estas que “atravancaram o progresso” são apenas os representantes mais ilustres de ecossistemas inteiros ameaçados pelos empreendimentos em questão. Estes também não são plenamente recuperáveis uma vez depauperados de sua diversidade.

A fartura de organismos biológicos, desde os microscópicos até os mamíferos e plantas ornamentais, é parte essencial para manutenção da qualidade de vida do homem. Seja através dos benefícios diretos que a biodiversidade oferece ou do simples valor cultural atribuído a ela, podemos afirmar sem medo que o ser humano pode viver bem com a diversidade biológica ou apenas, e questionavelmente, sobreviver sem ela.

O que observamos é que, defender espécies em particular, bonitinhas ou não, pode ser usado como argumento contra a própria preservação e acaba sendo ridicularizado por aqueles menos instruídos ou mal intencionados. Sendo assim, me parece que o eixo de divulgação e desenvolvimento da consciência ecológica e da conservação da diversidade biológica está se voltando para os serviços prestados diretamente à humanidade. Estes são de interesse direto e inquestionáveis.

* Chapin III, F.S. et al. Consequences of changing biodiversity. Nature v.405:234-242; 2000

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Semana do Meio Ambiente e o Código Florestal

Dia 5 de junho é o dia do meio ambiente. Desde 1972 a data, que marcou a abertura da Conferência de Estocolmo para o Meio Ambiente Humano, é comemorada pelas Nações Unidas com o objetivo de reforçar a consciência ambiental e incrementar a atuação política no meio ambiente. Neste ano o tema é "CO2 Kick the habit!", "CO2 Chute o hábito!" ou numa tradução livre: "CO2 Mude de hábitos!".

Nesta mesma semana o Deputado Aldo Rebelo, relator da Comissão Especial do Código Florestal prometeu apresentar seu relatório propondo modificações na Lei. Um relatório que enche de preocupação aqueles ligados à causa ambiental.

Um discurso muito ouvido do Deputado e de outros que defendem a diminuição ou mesmo extinção das Reservas Legais (RLs) e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) é que estes dispositivos legais presentes no Código Florestal nunca funcionaram na prática. Na teoria, os objetivos dos legisladores ao propor RLs e APPs são, não apenas adequadíssimos do ponto de vista técnico-científico mas, até visionários em termos de conservação da diversidade biológica e dos chamados serviços ambientais.

Ora, se temos um aparato qualquer que faz o que precisamos e até mais, mas que não funciona perfeitamente, o que se espera é que este seja melhorado ou consertado, não sucateado!

Se o Poder Público não cobrou a aplicação da Lei até agora, por hábito, está errado o Poder Público, não a Lei. Adequar para permitir uma melhor eficiência da Lei é necessário, mas não diminuir a proteção dada ao ambiente. A questão é de eficiência, não de efetividade. A Lei, se aplicada, é efetiva em atender a "função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas".


Simplesmente eliminar áreas naturais ecologicamente estratégicas como as RLs e APPs para dar lugar a áreas de cultivo tem um preço. No caso em tela, o preço é em uma moeda que dificilmente se recupera, a da diversidade biológica (confira os estudos recentes de pesquisadores brasileiros comprometidos com a qualidade ambiental na página da WWF).

Os tão temidos estrangeiros que o Deputado insiste em dizer que têm outras agendas, que não a puramente ambiental, já perderam parte significativa desta diversidade de ambientes, formas de vida e serviços ambientais. Por isso valorizam o que ainda temos. Não é o caso de impedir o desenvolvimento do nosso País, mas contribuir para que não aconteça a qualquer custo. Ademais, interesses internacionais sempre houveram e é sábio aproveitá-los quando nos favorecem. Xenofóbico, limitado e até ingênuo é puramente assumir que tudo o que é bom para outros países é prejudicial à sobrerania nacional.


Tenho certeza que todos trabalhamos pela tal sadia qualidade de vida, o bem-estar das populações humanas. Encontrar o equilíbrio entre a produção de produtos naturais (agropecuários) e serviços ambientais é o desafio que pede que mudemos a maneira de olhar, a mudança de hábitos.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Qual a sua UTOPIA?

Recentemente surgiu uma discussão numa lista de email que participo – Qual a sua UTOPIA?
 
Rapidamente respondi que não tinha uma, simplesmente por assumir racionalmente que utopias são inatingíveis. Depois daquele tópico de discussão encerrado, permaneci por dias pensando no assunto.

É claro que utopias são inatingíveis, essa é a definição do termo. O Houaiss dá uma leitura estritamente do ponto de vista social à “utopia”, com as seguintes definições:
  1. lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos
  2. qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade
  3. Derivação: por extensão de sentido.
    projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia
Admito que não me sinto confortável em gastar tempo com uma idéia irrealizável. Meu caráter pragmático não me permite isso. No entanto, minha devoção ao estudo das questões ambientais e à resolução dos problemas que as acompanham torna essencial perguntar: para onde estamos indo; e mais, para onde queremos ir?

Neste sentido, construir uma utopia é necessário, mesmo do ponto de vista prático. Ainda que esta não seja uma meta realística, é preciso olhar além do horizonte para que seja possível construir um projeto de mundo realista.

Ignacy Sachs recentemente escreveu:
  • Temos diante de nós um futuro aberto, e é por isso que faço a defesa do voluntarismo responsável. A grande dificuldade é saber distinguir onde para a utopia, no sentido etimológico do termo - aquilo que não existe "em lugar nenhum", e que talvez não poderá existir "em lugar nenhum" -, e onde começa o projeto. A utopia pode nos servir para esclarecer as grandes escolhas, sem por isso medir os obstáculos que surgem no caminho. A diferença entre a utopia e o projeto corresponde à clivagem entre uma política de "voluntarismo desenfreado" e uma política de "voluntarismo responsável" que deve transformar o projeto em realidade. O projeto leva em consideração os contextos objetivos e avalia as forças subjetivas que se mobilizam na direção desejada. (SACHS, 2010)
Estou aos poucos tentando construir minha utopia baseada na harmonia do desenvolvimento humano aliado a um meio ambiente saudável e rico do ponto de vista da diversidade biológica.

Descobri que, quanto mais penso nela, mais me convenço que, entender a minha UTOPIA é minha missão como cientista, professor universitário e mesmo como cidadão. A partir do entendimento e conseqüente formulação desta utopia é que se torna possível concretizar o que talvez seja necessário para caminhar no seu sentido. Ou seja, formular um projeto no sentido de Sachs.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quem paga a conta dos erros e exageros da sociedade no ambiente?

No Blog do AmbienteBrasil foi publicado hoje o post "De quem é a culpa da tragédia de hoje no Rio?"
Pensei em comentar e acabei resolvendo propor uma outra pergunta, tão importante quanto:

Quem paga a conta ambiental?

Não é novidade que as populações carentes são as que mais sofrem com os desastres ambientais cada vez mais constantes. Enquanto a maioria dos ricos e remediados senta em seus sofás assistindo novela, barracos despencam ou são soterrados nas encostas, rios transbordam inundando comunidades carentes e casas e prédios precários desabam. Quem paga a primeira rodada, eu respondo, é a classe trabalhadora mais pobre, que tem menor acesso a moradias em lugares estáveis e regularizados e, por isso, está mais exposta a enchentes e deslizamentos.
Claro, os lugares impróprios para ocupação mas que o são, irregularmente, via de regra não são seguros. Estão sujeitos a serem os primeiros a sofrer os caprichos do clima e das forças naturais. Não que os mais abastados não ocupem estas áreas. Eles ocupam, e às vezes até sofrem com a mão pesada da Natureza. Mas, mais frequentemente suas construções são mais sólidas e resistem melhor às intempéries. O simples fato de resistirem pode mesmo complicar a vida daqueles que não têm habitações tão sólidas, por represar águas de rios caudalosos e aumentar o runoff de encostas.
Sem contar que, frequentemente os empreendimentos de moradias populares ambientalmente impróprios são promovidos por empresários que ganham o suficiente para não morar nestes mesmos empreendimentos.

Temos duas causas próximas que podem ser destacadas para estes desastres que vêm sendo recorrentes:

1. Alterações climáticas: causadas por impactos difusos da sociedade humana: e

2. Padrões de uso do solo alterados: com aumento do runoff, diminuição do albedo, habitações construídas sobre o leito maior dos rios, em áreas alagáveis e em áreas de instabilidade geotécnica.

Mas, quais são as causas últimas para estes desastres? 

A externalização de custos ambientais para muitos com a finalidade de proporcionar o acúmulo de capital para poucos acaba trazendo problemas para todos. No entanto, é fácil perceber que aqueles que acumulam capital sentem muito menos estes problemas e, por tanto, aceitam o trade-off de problemas ambientais difusos na sociedade como um todo em troca de benefícios privados.

Se os mais pobres pagam a primeira rodada dos desastres ambientais, na hora de fechar a conta, todos terão sua parte a pagar. No entanto, aqueles que não são afetados podem perfeitamente alegar que, se tem de pagar uma conta preferem pagar mais tarde.
Enquanto o trade-off ambiental do capitalismo for atraente do ponto de vista daqueles que tem poder na sociedade atual dificilmente existirá precaução para evitar desastres ambientais para os menos favorecidos.

3Rs do Blog Ambiental

Inicio o blog quase que por força maior. Assuntos prementes sobre a utilização humana, as influências que temos sobre o ambiente e também que sofremos surgem semanalmente, se não diariamente.

Nesta página pretendo reunir pensamentos ambientalistas e técnicos sobre o nosso meio ambiente me aproveitando dos 3Rs da sustentabilidade: redução; reuso; reciclagem.

REDUZIR é usar com parcimônia e economia, que também significa utilizar apenas o que é essencial eliminando os supérfluos. Neste blog, vou procurar explicitar os pontos realmente importantes e eliminar os supérfluos das questões ambientais. Entender as reais necessidades que temos é o primeiro passo para usar o ambiente de forma sustentável.

REUTILIZAR implica em trazer e divulgar notícias ambientais inicialmente publicadas em outros locais da Internet.

RECICLAR é analisar criticamente os fatos ocorridos trazendo uma nova perspectiva que some aos esforços anteriores de entender nossa relação com o nosso meio ambiente.

Vamos ver se vinga.