2010 é o ano da Diversidade Biológica ou como é mais conhecida, a BIODIVERSIDADE.
Talvez seja o momento de revermos as estratégias para mostrar ao público em geral como a diversidade de organismos que nos cercam é importante. No início da conscientização sobre a importância da biodiversidade o panda da WWF foi o primeiro animal a ser usado como “espécie bandeira”.
As “espécies bandeira” desde então vem sendo utilizadas para “levantar a bandeira da conservação e inúmeros outros organismo, plantas e animais foram elevados a esta condição. Sempre com o objetivo de alertar para a perda da biodiversidade.
Mas, por mais carismáticos e fofinhos que sejam estes animais, porque é importante salvá-los em contraposição a melhorar as condições de vida de populações humanas?
Este é um questionamento que venho ouvindo há algum tempo. Como biólogo e zoólogo tenho especial predileção pela diversidade biológica, mas como humano e cidadão entendo a pergunta.
Acontece que estes animais carismáticos são apenas, como o nome do conceito diz: bandeiras. Bandeiras para chamar a atenção de que é necessário, para o nosso próprio bem, preservar a diversidade biológica. Não é necessariamente uma ou outra espécie que, uma vez extinta irá afetar diretamente o ser humano, mas estas situações acontecem e já são documentadas há algum tempo (*CHAPIN III et al., 2000 e referências citadas). Possivelmente a população humana não perderia materialmente muito sem o panda. No entanto, banalizar as extinções é compactuar com um imediatismo pouco inteligente e que disperdiça o que a evolução levou bilhões de anos para desenvolver.
Recentemente, no Brasil vimos alguns exemplos onde a mídia e o próprio governo levaram ao ridículo o uso de espécies bandeira em defesa da biodiversidade. Um deles foi a dourada da amazônia (Brachyplatystoma rousseauxii) que foi reduzido ao “Bagre que caiu no colo do Lula. Outra foi a perereca Physalaemus soaresi, responsabilizada por parar a obra do Arco Rodoviário do Rio de Janeiro. Neste caso em particular a imprensa ficou em polvorosa – como seria possível parar uma obra com tantos benefícios econômicos e sociais por causa de uma PERERECA???? Outros casos existem, como ararinhas-azuis no Gasoduto Brasil-Bolívia e o sapo-narigudo-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus macrogranulosus) em um trecho da BR-101 no Rio Grande do Sul.
O fato é que, nestes casos apontar a existência de espécies ameaçadas foi uma “faca de dois gumes”. Todos os problemas de licenciamento relacionados a estas espécies seriam facilmente resolvidos se o trajeto ou a localização dos empreendimentos que as ameaçavam/ameaçam fosse alterado. O caso da dourada da amazônia apresenta apenas a ponta de um iceberg que irá modificar em muito a hidrodinâmica Bacia Amazônica e, por conseguinte, de todo o ecossistema aquático do Amazonas. O caso dos anfíbios (pererecas e sapos) e da ararinha-azul o “problema” gerado e toda a estupefação do povo, na verdade, encobriu intenções mesquinhas por parte dos empreendedores, inclusive o governo (através de suas empreiteiras) de economizar centavos nos empreendimentos em troca de sacrificar um patrimônio que é igualmente da Nação. Diferente de oportunidades de negócios, uma vez que a Sociedade abra mão destas espécies não haverá chance de recuperá-las. Além do mais, como espécies bandeira ou espécies guarda-chuva, estas que “atravancaram o progresso” são apenas os representantes mais ilustres de ecossistemas inteiros ameaçados pelos empreendimentos em questão. Estes também não são plenamente recuperáveis uma vez depauperados de sua diversidade.
A fartura de organismos biológicos, desde os microscópicos até os mamíferos e plantas ornamentais, é parte essencial para manutenção da qualidade de vida do homem. Seja através dos benefícios diretos que a biodiversidade oferece ou do simples valor cultural atribuído a ela, podemos afirmar sem medo que o ser humano pode viver bem com a diversidade biológica ou apenas, e questionavelmente, sobreviver sem ela.
O que observamos é que, defender espécies em particular, bonitinhas ou não, pode ser usado como argumento contra a própria preservação e acaba sendo ridicularizado por aqueles menos instruídos ou mal intencionados. Sendo assim, me parece que o eixo de divulgação e desenvolvimento da consciência ecológica e da conservação da diversidade biológica está se voltando para os serviços prestados diretamente à humanidade. Estes são de interesse direto e inquestionáveis.
* Chapin III, F.S. et al. Consequences of changing biodiversity. Nature v.405:234-242; 2000
* Chapin III, F.S. et al. Consequences of changing biodiversity. Nature v.405:234-242; 2000




